segunda-feira, 18 de maio de 2020

Lá vem Bach de novo mas 
sabe-se até quando vamos resistir?
É uma boa música 
mas o que quero dizer e saber:
até quando seremos capazes de ouvir 
o que ele tem a dizer?
pontos de interrogação às vezes são
desanimadores
quanto mais e mais carentes 
nós ficamos 
mais gigantes como Bach irão desaparecer 
de nossos pensamentos e de nossas vidas e 
o sabor e o toque de sua música 
será como encontrar meu amor morto 
acabando de morrer 
os olhos fechados 
seu corpo ainda macio 
ainda quente 
seus cabelos se derramando sobre meu braço. 

ouço Bach sempre que posso 
e meu amor está vindo pra cá essa noite 
em sua Kombi 1966
enquanto gelo o vinho e espero. 

seu cabelo é da cor mais estranha:
vermelho com dourado 
tal como exércitos conquistadores 
esmagam lesmas 
esmagam narcisos. 

ela tem mãos pequenas 
pés pequenos. 

nós brigamos 
rimos quase sempre. 

estou ouvindo Bach agora. 
a música para. 

ela dirige aquele maldito ônibus em miniatura 
como um 
Barco a remo pelas corredeiras 

se ela ouvisse meu coração 
ela iria mais devagar 
bem mais devagar. 

por favor me deixe morrer 
antes porque sou mais velho 
bem mais velho. 

escuta Bach, o seu deus e o meu deus 
são reais mas 
ajudam só momentaneamente. 
quero que você 
me diga que está tudo 
bem
e que os cabelos vermelhos e dourados dela 
serão 
espalhados 
sobre meu travesseiro de novo. 
os seus pés pequenos 
as suas mãos pequenas 
os seus dedos acariciando meus olhos e
minhas orelhas e o seu riso me 
consolam. 

- Charles Bukowski, Kombi 1966. 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O ser humano gosta de complicar as coisas, 
é só uma brisa, 
quem sabe ela bagunce teu cabelo,
quem sabe te acaricie o rosto, 
quem sabe... quem sabe... 

- Dom Casmurro, Machado de Assis. 

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Diário da quarentena - Dia 43

Eu não quero levantar da cama. 
Não quero ouvir música e nem sinto vontade de dançar. 
Eu não quero ler. 
Não quero assistir filme. 
Não quero sair lá fora e observar o jardim. 
Eu não quero tentar tirar uma selfie bacana. 
Não quero cozinhar as coisas habituais. 
Tão pouco testar receitas novas. 
Eu não quero dar uma volta. 
Não quero assistir ao pôr do sol. 
Não quero conversar com meus amigos. 
Não quero fazer chamadas de vídeo com ninguém. 
Não quero beber em casa. 
Mas eu sei que hoje é algum dia entre abril e agosto. 
E sei que estou cansada de me sentir perdida no tempo. 
Pelo menos a madrugada ainda possui um silêncio reconfortante. 
Pelo menos ainda consigo escrever. 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Me perdoe pelos meus mil anos à frente dos nossos segundos e pela saudade melancólica que eu senti o tempo todo, mesmo sendo nossos primeiros momentos. Pelo retesamento na hora de entregar. Pela maneira como eu grito e culpo que tiver por perto por uma angústia que sempre foi e será só minha e que eu sempre suporto, mas quando sinto amor, fico achando que posso distribuí-la um pouco, mesmo sabendo que é fatal. Me desculpe por eu ter querido tanto ficar bonita e perfeita e só ter conseguido olheiras e ossos. Me perdoe pelas vezes que de tanto querer leveza, acabei pesando a mão. De tanto querer sentir, pensei sobre como estava sentindo e perdi o sentimento. 

- Tati Bernardi.