terça-feira, 28 de junho de 2016

Eu sou tradicional. Sou convencional, apesar de não ser normal. Se eu me corto, eu sangro. Se bato o dedo do pé na mesa, dói. Sou uma pessoa comum. Acredito no até que a morte nos separe e também no eterno enquanto dure. Acredito que, se eu sou capaz de ser fiel, alguém mais pode ser... Valorizo as pequenas atitudes, assim como condeno pequenas mancadas. Sou rancorosa, guardo por anos uma coisa que me magoou de verdade. Sei perdoar. Passo por cima dos erros pra ficar junto das pessoas que eu gosto. Tenho meus limites. O primeiro deles é meu amor próprio. Perdoo uma vez, porque errar é humano. Perdoo duas porque o ser humano é estúpido às vezes. Mas não posso viver perdoando porque isso seria incompetência minha. Acredito que as pessoas aprendem com os próprios erros e com o tempo. Acredito também que quem traiu uma vez e foi perdoado vai trair de novo. Acredito que tudo que eu acredito hoje vai mudar com o tempo. E que, no futuro, talvez, eu acredite em menos coisas. Ou em nada mais. 

- Clarice Lispector. 

domingo, 19 de junho de 2016

O que eu odeio é que algum dia tudo se reduzirá a nada, os amores, os poemas. Acabaremos recheados de terra como um taco barato. Que coisa mais triste, tudo é tão triste - a gente passa a vida inteira feito bobo para depois morrer como um besta. 

- Charles Bukowski. 

domingo, 5 de junho de 2016

The real violence, the violence that I realize is unforgivabble is the violence that we do to ourselves when we're too afraid to be who we really are. 

- Sense8. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Acontecimentos recentes me fizeram refletir sobre algumas coisas. Estranho como a gente se acostuma com as coisas/pessoas ruins. Falando por mim, que já estava tão acostumada a ter que esconder meu amor da sociedade, a ter que namorar/beijar escondido, a receber olhares tortos e escutar palavras rudes por causa da minha orientação sexual, passei a simplesmente esperar isso das pessoas. Sempre. Mas de vez em quando a gente conhece seres humanos que valem à pena. Infelizmente são raros, mas estão lá, em algum lugar. Mesmo que nos esqueçamos deles. E eu havia me esquecido há muito como é ser eu mesma na frente de pessoas estranhas, e ser aceita por isso, sem julgamentos, questionamentos ou críticas. É tão gratificante que encoraja a gente. Dá vontade de gritar pro mundo que aquelas pessoas me entendem, que elas sabem que não estou cometendo nenhum crime por gostar de uma outra garota, que isso não é errado, que não sou nenhuma aberração. Mas o pior de se acostumar com a maldade alheia, é que a gente começa a esperar ela de todo mundo, inclusive das pessoas mais próximas a nós. Me peguei diversas vezes pensando no que minha mãe diria se soubesse que não teria um genro, nunca. E eu sinto vergonha das coisas que imaginava ela me dizendo, sinceramente, porque não eram nada legais. Me imaginava sendo expulsa de casa, a vergonha da família. E isso me aterrorizou durante muito tempo. Mas aí, coisas inesperadas aconteceram. Pessoas inesperadas vieram. E me fizeram enxergar que talvez eu estivesse errada. Em relação às outras pessoas, em relação à minha mãe, em relação à mim mesma. E isso me deu coragem pra responder as perguntas da minha mãe abertamente, sem gaguejar, sem titubear, sem olhar pra baixo, sem chorar. Olhos nos olhos, francamente, ela me perguntou e eu respondi. Firme. Me tremendo toda por dentro, por medo da reação dela, mas ao mesmo tempo, era como se o peso do mundo tivesse sendo tirado dos meus ombros a cada palavra dita, cada frase formada, cada pergunta respondida. Não tenho como dizer que ela ficou feliz ou triste. Foi uma conversa tensa, mas franca. No fim, ela não disse que me amava, mas também não disse que me odiava. Ela não me abraçou, mas não me repudiou. Não disse que me entende, mas seu silêncio deixou claro que me respeita. Ela não parou de falar comigo, não parou de me olhar nos olhos. Ela ainda é a minha mãe, e eu sinto que ela me ama da mesma maneira de antes, assim como eu a amo, apesar de nossas inúmeras diferenças. O fato é que eu esperei um discurso cheio de mágoas, lágrimas, esperava ela dizer que eu era uma vergonha, que a havia decepcionado, e na verdade, ela me disse que entendia porque eu havia me afastado da nossa família, porque sabia que todos iam comentar e torcer o nariz. Esperei um "tapa" e ela me deu um "abraço", mesmo que não no sentido literal da palavra, me senti segura, acolhida. Me senti menos suja por não ter que mentir mais pra ela sobre minha vida. Incrivelmente, em vinte anos de convivência, foi o dia em que eu estive mais próxima da minha mãe, como filha. Foi quando senti a amizade e o amor dela mais vivos. Disso tudo, tiro muitas coisas boas apesar dos pesares. Sou uma pessoa de sorte. E sei disso. Tenho tantos amigos do meio LGBTT que gostariam do silêncio que minha mãe fez ao invés das acusações que ouviram quando se assumiram, que amariam o olhar confuso, mas de cumplicidade da minha mãe ao invés dos ataques de fúria e revolta. Eu costumava pensar que os receberia também, que sofreria tanto quanto eles, por isso adiei tanto essa "saída do armário". Preferi me reprimir a cogitar a hipótese de ser aceita. Mas sou uma pessoa de sorte, e mesmo tendo nascido em uma família tradicional, católica, temente a deus e essas coisas que são usados em discursos de ódio gratuito contra nós todos os dias, ainda assim, minha mãe conseguiu ser a pessoa mais linda do mundo, mesmo não tendo falado muito, mesmo não tendo demonstrado muito. Significou muito pra mim. Tive que conhecer anjos para descobrir que morava com um. Enfim, se puder resumir todo esse texto em uma palavra: GRATIDÃO. Pelas pessoas que a vida me apresentou, pelos caminhos que percorri até aqui, pela família que possuo, por me redescobrir em mim mesma. 

domingo, 3 de abril de 2016

Tenho andado tão absorta em meu mundo de séries e filmes que me esqueço do mundo real, onde coisas ruins acontecem, e escrever é minha válvula de escape. Tenho dedicado menos tempo pra reclamações e aproveitado melhor o tempo ócio, e por hora, está sendo bom. Mas sinto falta da liberdade de sentar e escrever qualquer coisa, mesmo que inútil. Sinto saudades de digitar sobre meu dia, meus planos, sonhos e frustrações, mesmo sabendo que ninguém venha a ler. Por isso, dedicarei alguns minutos do meu dia a desabafar. Ontem eu fui ver o pôr do sol. Estava angustiada, desesperada. Me sentia sufocada, precisava de um lugar aberto. Ali é meu ponto de paz, onde me sento e me perco por horas observando o sol se despedir lentamente, e a noite chegar, reconfortante. Naquele lugar, sentada naquela pedra, observando a imensidão do céu, percebo quão pequena sou em meio a todo esse mundo caótico. Esqueço meus problemas, vergonhas, dores. Somos só eu e o vazio a minha volta, o silêncio, o vento, e o sol, mesmo fraco, a iluminar tudo isso. Sempre que me sinto perdida, busco refúgio nesse lugar. Onde eu quase consigo fugir de mim mesma e dessa esquizofrenia ambulante que me tornei. Paro, penso, reflito, medito. É incrível como o lugar é o mesmo, a pedra é a mesma, o sol é o mesmo, mas a cada vez que vou lá, consigo voltar diferente. Menos mesquinha, talvez. Menos egoísta. Talvez tenha a ver com encarar a imensidão, e perceber que não sou nada perto de toda a grandeza do universo. Ou talvez, apenas preciso ficar um tempo comigo mesma, sem platéia, somente em contato com a natureza. Bom ou ruim, é pra lá que eu corro quando tudo fica pesado demais sobre os meus ombros e parece que vou ceder ao peso. E lá redescubro minha força, recarrego as energias, e volto cheia de planos. 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Não vou mentir dizendo que li tudo o que me escreveu. Tão pouco vou me fazer de forte e dizer que nenhuma lágrima caiu dos meus olhos ao relembrar certas coisas. Sobretudo, não vou negar pra mim mesma nem pra você que a amei. De verdade, te amei por completo. Amei seus defeitos e qualidades, amei tudo aquilo que todos condenavam e ainda condenam em você, fui contra todos e preferia ficar ao seu lado do que com pessoas que eu saberia que te julgariam mal, afinal, eles não te viam como eu te via. Sinceramente, se foi intencional ou não, me sinto aberta em feridas. Toda a dor que senti nesses três anos de convivência pelos momentos ruins, e a dor que senti agora revivendo os momentos bons que passamos e jamais voltarão me dilaceraram como lâminas afiadas de um bisturi me cortando em carne viva, sem anestesia, consciente. Ninguém entende, ninguém sabe o que passamos, sempre vão nos julgar pelos motivos, escolhas e aparências erradas. Não me importo. Dizer que você já não tem mais importância pra mim não posso, sinceramente. Revirando essas cartas, me revirou o estômago também. Coloquei pra fora tudo de tóxico que me envenenara todo esse tempo. Fiquei tonta, sem ar, sem reação. Suas palavras me atingiram como uma pesada bola de ferro que esmagou tudo aquilo que eu tinha construído sem você, e talvez nem fosse essa a sua intenção, mas novamente, você me machucou. Não vou reclamar disso, ambas erramos, ambas nos machucamos. Mas eu procuro não reabrir feridas fechadas, porque sei o quanto dói a infecção, sei o quanto arde passar por tudo aquilo de novo. Mas você, naturalmente, tem talento para se torturar, e me torturar. Me fez viajar há três anos, quando tudo começou, numa narrativa dolorosa, tortuosa, cheia de lembranças boas que me fizeram sentir saudades, mas ao mesmo tempo já não quero mais. As feridas estão reabertas, vou me esforçar para fechá-las. Sei que contigo, por mais que tentemos negar, elas vão estar sempre em carne viva, e não quero isso novamente. Suportei tempo demais nessa angústia, engoli muita coisa, não que você não o tenha feito, não que eu não tenha errado, no fim, seremos sempre culpadas por esse fim imutável, por parecermos completas desconhecidas, embora tenhamos histórias pra contar. Nossa história, que agora se bifurca, e passa a ser individual, minha e sua, não mais compartilhamos os mesmos gostos, os mesmos lugares, as mesmas fotos... Não cabemos mais no mundo uma da outra. Golpe baixo trazer à tona sofrimentos de quatro anos atrás que tento em vão esquecer. Minha maior fraqueza, meu maior fracasso. De novo, cortes reabertos dolorosamente, lembranças trazidas à tona, e pra que? Pra me fazer chorar? Pra que eu me sinta culpada e fracassada por tudo o que aconteceu? Pra que eu te peça perdão? De novo? Quantas vezes já te escrevi pedindo desculpas por ser o que eu sou? Por não ser o que você queria ou merecia? Qual o objetivo de me bombardear com suas palavras feito ondas furiosas em uma tempestade no mar? Se quer saber minha real reação, eu morri. Morri lendo cada uma daquelas palavras, e ainda morrerei mais, pois não li nem metade do que me escreveu, porque sinceramente, não consegui. As paredes estão se fechando a minha volta e tudo que eu queria era sumir pra não me sentir esse vazio, essa imensidão que existe em mim, que antes pertencia a você, mas não posso. Morrerei amanhã novamente, talvez depois de amanhã, não sei. Não me falta coragem para relembrar, me falta resistência à dor. Hoje vejo que não nos restou nada, e que isso ainda dói. Mas não há mais saídas, não há para onde correr, ou para quem gritar por socorro. Acabou, game over. É o fim da linha, para ambas, só restam as lembranças e as cicatrizes. Essas cartas, guardarei pra sempre, como um lembrete de tudo que fiz de bom e ruim a você, e a mim também. Não pense que eu não senti, que não me comovi, apenas não encontro mais motivos para mais tristezas, porque quando não se tem alegrias, uma tristeza a mais, outra a menos, acaba não fazendo tanta diferença. Acostumamos com tudo, presenças e ausências. Assim como eu, que um dia fui tão dependente do seu amor e carinho, que um dia jamais imaginei minha vida sem você, hoje sigo com a consciência tranquila de que errei, mas fiz minhas escolhas, do jeito que deveria fazer, você também deve seguir seu caminho, seu rumo. Não somos mais as mesmas, não pertencemos mais aos padrões que seguíamos. Começamos e terminamos sem nada além de lembretes, tempos bons, alegrias e tristezas. Mesmo que me doa, não me sinto mais culpada, não consigo me arrepender dos motivos e razões que me levaram a estar aqui, onde estou. Se precisar de alguma coisa, saiba que pode contar comigo, não lhe virei as costas. Apenas não creio que consigamos dividir o mesmo espaço amistosamente, então prefiro me recolher ao meu vazio. Mas ainda estou aqui, sabe onde me achar. Acabarei de ler depois, estou cansada, chorei, sorri, morri, vivi... Não tem muito mais o que dizer, tentamos, funcionou por um tempo, hoje não mais. Só posso dizer que lamento pelo rumo que as coisas tomaram. Querendo ou não, você sempre será parte de mim, e eu sempre me lembrarei de você, como uma parte boa ou ruim, com carinho ou ódio, você sempre vai ter seu espaço aqui, então, não vamos nos ater à perdas. Falemos dos ganhos, do que uma trouxe de bom para a outra, e tentemos seguir em frente sem mais nos machucarmos nesse caos que se tornou nossas vidas. Despeço-me aqui, achei que te devia uma explicação, ou sei lá, talvez eu apenas precisasse colocar tudo pra fora de uma vez. Te cuida, não lhe desejo mal algum. Espero que sejas feliz e encontre alguém que te mereça como um dia eu achei merecer.